

Nunca vi uma cidade com tantos sapateiros. Em cada esquina e estação de metrô encontro, pelo menos, um. O meu prédio também oferece serviço de recauchutagem de calçados. Demorei para entender essa nipo-fixação, mas acho que descobri o porquê.
As lojinhas locais de Tóquio só oferecem três números de sapatos para a mulherada: P, M e G. Por isso, quando a Cinderela acha um sapato que caiba direitinho no pé, ela cuida, remenda, encera, lustra, não perde na escadaria do castelo e ainda casa com ele (porque é mais fácil achar o príncipe encantado do que uma bota do tamanho certo).
Com a globalização, chegaram as grifes e sapatarias internacionais (para a minha sorte…). Mas ainda é bem comum ver moças com sapatos saindo do pé de tão grandes ou ver dedos para fora da sandália por falta de espaço.
Mesmo com toda essa problemática de tamanho, nunca vi saltos tão altos na vida. As japonesas se equilibram nas tamancas sem tropeços, numa cidade que tem em média três terremotos por dia. Ah, os saltos vão a qualquer evento: andam de bicicletas, vão aos parques públicos e sabe lá onde mais. Eu tô danada, já que acabei de chegar de NY, onde a única pessoa a usar saltos altos de dia era a Carry Bradshaw.

Eu fico abismada de ver as japinhas andando o dia inteirinho com sapatos do tipo “arranha céu”. Elas aguentam na marra. Segundo a teoria da minha mãe, o país já foi destruído por bombas atômicas e não será uma bolha ou um calo na sola que vai fazer o povo se render. Eu já acho que herança vem dos tempos em que só se usava o gueta, sapato de madeira, que deixa o calcanhar de fora. Como ele faz parte da indumentária tradicional, até hoje são vistos pelas ruas e nunca ouvi as gueixas se queixarem!!
